O que são, portanto, os movimentos e flutuações da mente descritos por Patanjali? Na imagem do lago, correspondem às asperezas e ondulações na superfície e às correntes e movimentos nas profundezas. Todos sabemos dos pensamentos peculiares que agitam a superfície da nossa mente: “Puxa, esqueci de comprar cenouras” ou “Meu chefe não gosta de mim”. Percebemos também como as perturbações externas criam perturbações internas: “Não consigo me concentrar com todo esse falatório”. Na ioga, o “falatório”, nosso ou dos outros, são as ondulações que nos distraem. Assim, também nossos desejos, aversões, invejas, dúvidas e medos irrompem à superfície da mente e da consciência. Os pensamentos que se originam na memória são considerados um tipo de onda, bem como os sonhos ou devaneios. Mesmo a ignorância é vista como um tipo de movimento na consciência. Falaremos sobre isso mais adiante; a questão aqui é que há um grande número de forças a perturbar o lago, turvar suas águas e movimentar a superfície. Como vemos, a tarefa de devolver a ele o estado de tranquilidade e pureza límpida e cristalina é hercúlea. Assim, primeiro precisamos examinar atentamente a nossa consciência, ver quais elementos devemos combinar para restaurá-la e analisar como eles funcionam em conjunto. (página 148)

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As técnicas de ioga nos oferecem a oportunidade de capturar a energia interna e externa e usá-la para nossa evolução pessoal. A prática do ásana limpa os canais internos para que o prana se mova livre e desimpedido. Se os nervos estão corroídos e obstruídos pelo estresse, como o prana poe circular? A prática dos ásanas e pranayama remove a divisão que separa o corpo da mente. Juntos eles dispersam a escuridão e a ignorância. Em certo sentido, é a prática dos ásanas que abre a porta para a perfeição. Ela rompe a rigidez e a resistência do corpo interno. Com isso, a respiração sem ritmo se torna ritmada, profunda, lenta e reconfortante. O pranayama, por sua vez, limpa e acalma o cérebro febril, abrindo caminho para a razão e clareza de pensamento elevando a mente rumo à meditação. (página 141)

Os vrttis saudáveis

Traduzo aqui, de maneira bastante livre, a primeira recomendação específica de Patanjali sobre as perturbações emocionais: “Se na sua relação com os outros você é feliz, afável e altruísta, os obstáculos diminuem. Se suas emoções são mesquinhas e sua mente é dada a julgamentos, os obstáculos aumentam”. Para ser mais preciso, o que Patanjali diz é que, para ter uma consciência serena, precisamos estar dispostos a mudar a maneira de nos comportar e relacionar com o mundo externo. Para nosso próprio bem. Certos tratamentos, conhecidos como propriedades de cura e saúde da consciência, cultivam a mente e suavizam o caminho do iogue. São eles:

1 Maitri: Cultivar a amizade com as pessoas felizes.

2 Karuna: Cultivar a compaixão por aqueles que estão tristes.

3 Mudita: Cultivar a alegria pelos virtuosos.

4 Upeksa: ultivar a indiferença ou neutralidade em relação aos que são cheios de vícios.

(página 131)

Sentir é um verbo, algo que acontece. Todos sentimos. A emoção é um substantivo, uma coisa. Sentir é bonito, faz parte da condição animal e humana. Quando deixamos os sentimentos endurecerem as emoções e misturarem-se a elas — as quais carregamos como escravos oprimidos sob um pesado fardo –, negamos a nós mesmos o frescor da vida, seu infindável potencial de renovação e transformação. Desperdiçamos muita energia ao permitir que as emoções nos governem. Os sentimentos e as emoções estão ligados aos órgãos, à respiração e à mente. Os sentimentos que experimentamos antes de pipocarem em nossa cabeça são chamados de “viscerais” e respeitados em virtude de sua natureza instintiva. No organismo sadio, os sentimentos devem passar como nuvens diante do sol. Quando, por intervenção do pensamento, eles ficam ancorados na memória, convertem-se em emoções e já não têm mais relação com o momento, mas com o passado. Tornam-se mais densos e escuros, como nuvens de tempestade que encobrem o sol. Essas emoções estagnadas são como veneno para nós e nos impedem de ver a realidade. (página 121)

Quando você está emocionalmente perturbado, a insegurança e a ansiedade da mente consciente se convertem na mente inconsciente, que se esconde, na verdade, no coração, não no cérebro. O temos do futuro, a insegurança de não saber se as necessidades e exigências da vida serão atendidas e satisfeitas, o medo de perder o que se tem — essas são preocupações que afligem a todos. Dinheiro, casa, trabalho, comunidade, amigos e parentes podem ser motivos de inquietação. Seja o desejo de conquistar nome e fama (trabalho), seja o cuidado com pessoas mais próximas e queridas (família), todos enfrentamos os mesmos problemas. Os seres humanos, por natureza, resistem às mudanças, pois se sentem seguros com o que é conhecido e temem a incerteza trazida pela novidade. preferimos viver numa rotina fixa e familiar e evitamos aceitar ou mesmo sentir o que está além daquilo que conhecemos. Mas a vida inevitavelmente oscila, se move e transita entre o conhecido e o desconhecido, e não estamos preparados para aceitar seu fluxo. Queremos a liberdade, mas estamos agarrados à servidão. Não permitimos que a vida “aconteça” e siga seu curso. Antagonismos, oposição, conflito de interesses e ideias, confrontos de ego (pessoal e coletivo) e uma compreensão limitada são elementos inevitáveis da vida.

A solução da ioga para essas vicissitudes está em aprendermos a adaptar-nos e desenvolver-nos. É fundamental controlas os distúrbios emocionais e as flutuações da mente. O autocontrole consciente nos poupará de muitos problemas. Quando tivermos feito tudo o que está em nosso alcance, estaremos prontos para encarar o futuro sem medo e lidar com qualquer desafio que ele possa trazer. Podemos também controlar nossas dualidades e conflitos internos. Dessa maneira, reservamos energia para enfrentar as inevitáveis dificuldades da vida, seus altos e baixos, tristezas e alegrias, com mais equanimidade e menos inquietação emocional.

No pranamaya kosa, o invólucro energético, trabalhamos não só com a respiração, mas também com as emoções. Você certamente já se deu conta de que as emoções afetam muito a respiração. O choro é um exemplo mais evidente de como a respiração se altera sob o efeito das emoções. Se queremos levar a sério o trabalho com a respiração e a energia do corpo, devemos lidar com as seis perturbações emocionais. (página 116/117)

Assim como as folhas se movem ao vento, a mente se move ao sabor da respiração. Quando a respiração se torna regular e tranquila, tem o efeito de neutralizar a mente. Quando você sustenta a respiração, sustenta a Alma. Ao reter totalmente a inspiração, você retém a divina infinitude que habita o seu interior e realiza todo o potencial de sua individualidade. Trata-se, porém, de uma individualidade divina, não da criatura pequena e egoísta com a qual normalmente você se identifica. Ao expirar, você generosamente compartilha seu eu individual com o mundo universal. Expirar significa exalar e também morrer. O que morre é o sentido de eu que conhecemos, que se agarra fervorosamente à própria identidade e existência. Na retenção que sucede a expiração, experimentamos a vida após a morte. Assim enfrentamos e dominamos aquilo que o ego mais teme. O véu da ilusão que encobre o eu é, então, removido. (página 110/111)

Vivemos dentro da nossa consciência individual e sua limitada inteligência, sentindo-nos muitas vezes sozinhos e insignificantes, quando temos à disposição um conduto que leva diretamente à consciência e à inteligência cósmicas. Através desse conduto corre o prana, ligando cada um de nós ao supremo princípio original da natureza. O pranaiama cuida de restaurar o conduto para que a inteligência que porta a energia do macrocosmo possa iluminar o microcosmo. (página 103)